Fechamento de agências físicas do Itaú no interior de Minas impacta servidores e bancários
Em Minas Gerais, o Itaú é a instituição responsável pela folha de pagamento dos servidores do estado; falta de agências afeta principalmente os aposentados (Por Raíssa Pedrosa) - foto Paulinho Costa feebpr -Itaú é responsável pela folha de pagamento dos servidores ativos e inativos do estado de Minas Gerais.
Instituições bancárias do Brasil estão fazendo um movimento de migração para um ambiente cada vez mais digital. Um levantamento do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) mostra que, só entre 2024 e 2025, os cinco maiores bancos do país fecharam 1.345 agências em 12 meses. Em Minas Gerais, o recente fechamento da única agência do Itaú na cidade que originou o nome do banco - Itaú de Minas - simboliza o impacto desse movimento. A ação da instituição, em especial, tem um peso considerável nesse cenário: em Minas, é o Itaú que comporta a folha salarial dos servidores do estado.
No início do mês, o Itaú Unibanco S.A. venceu a licitação para continuar a prestação de serviços de pagamento a, aproximadamente, 670 mil servidores estaduais e fornecedores pessoas jurídicas do estado, com uma proposta de R$ 2,188 bilhões. Isso inclui servidores ativos, aposentados e pensionistas, que são os principais afetados pelo fechamento de agências, porque eles precisam se deslocar até a cidade mais próxima para fazer transações quando deixam de contar com a assistência bancária no município onde moram. Mesmo que façam portabilidade do rendimento (transferência do salário para outra instituição bancária), precisam ir até a agência do Itaú para realizar a prova de vida.
Muitas vezes, parte dos aposentados e pensionistas não tem tanta afinidade com a internet para fazer transações de forma online. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cerca de 25% das pessoas com mais de 60 anos não utilizam internet e destes, 66% dizem que não utilizam porque não sabem. O Portal da Transparência mostra que os servidores inativos (aposentados e pensionistas, muitos acima de 65 anos) correspondem a 42% da folha salarial em MG. “A maioria desses servidores idosos são dependentes, eles não têm como acessar a tecnologia porque eles não foram preparados para isso. Eles se aposentaram em outra era”, afirma Geraldo Henrique, diretor político do Sindicato dos Trabalhadores do Serviço Público do Estado de Minas Gerais (Sindpúblicos-MG).
Geraldo Henrique lembra que a necessidade de se deslocar para outra cidade – e muitos vão para simplesmente sacar a aposentadoria ou fazer prova de vida, por exemplo – é também um risco à segurança. “Você vive num país inseguro, onde existe muita violência contra mulheres e idosos, é uma situação preocupante”, destaca.
O presidente do Sindicato dos Bancários de Belo Horizonte e Região, Ramon Peres, lembra que, em muitos casos, a agência da cidade mais próxima está a vários quilômetros de distância. “Quando fecha uma agência em Itaú de Minas, em Resplendor ou Matozinhos, o cidadão, para poder utilizar o serviço bancário, tem que, às vezes, pegar um ônibus e andar 10 km. Matozinhos, por exemplo, para a pessoa ser atendida, ela tem que ir para Sete Lagoas, que são 15 km, ou Pedro Leopoldo, que são 10 km”, exemplifica Ramon Peres.
A agência de Resplendor, no Vale do Rio Doce, citada por Ramon, tem um capítulo à parte. Em junho, o Itaú havia anunciado o fim do atendimento presencial na unidade e a transferência das contas para o município vizinho de Aimorés, que fica a 35 km. O Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) entrou com uma ação na Justiça para impedir o fechamento abrupto. A Justiça deferiu e, em 26 de junho, ordenou a manutenção de todos os serviços presenciais por pelo menos 30 dias. O banco informou que acatou a decisão, e a agência permanece aberta.
Questionado sobre o atendimento aos servidores que ficaram sem agência física na cidade, o Itaú Unibanco informou que eles contam com acesso a todos os produtos e serviços do banco por meio dos canais digitais, além do suporte de especialistas remotos e da central de atendimento. "O atendimento presencial permanece disponível nas agências físicas receptoras das regiões próximas", disse em nota. Além disso, em seu site, o Itaú diz que esses fechamentos integram um movimento de reorganização da rede do banco e acompanham a “transformação digital do setor financeiro”.
Na Grande BH, o movimento de fechamento também acontece de forma intensa. Dos cinco maiores bancos que fizeram esse movimento na Região Metropolitana de Belo Horizonte, o Itaú foi o que mais fechou agências, segundo o Sindicato dos Bancários de BH e Região. Foram 42 agências desligadas na região em 12 meses, sendo 21 só do Itaú.
Transferências em agências físicas são 3%
O movimento de fechamento de agências como um todo reflete a aceleração do uso da tecnologia no Brasil, especialmente após a pandemia e a criação do Pix. Dados da Federação Brasileira de Bancos (Febraban) mostram que o Pix é hoje o principal meio de pagamento do brasileiro. Só no segundo semestre de 2025, por exemplo, foram 42,9 bilhões de transações. Além disso, hoje, 78% das transações bancárias são feitas pelo celular, enquanto apenas 3% acontecem em agências bancárias e 2% no autoatendimento.
Ramon Peres, do sindicato dos bancários, pontua, no entanto, que esses 3%, em um universo de 240 bilhões de transações no ano de 2025, correspondem a cerca de 7,2 bilhões de transações realizadas em agências físicas. “São 28,6 milhões de transações todos os dias dentro das agências físicas. Então, quando os bancos falam que todo mundo está digitalizado, que as transações agora são feitas todas no site, no aplicativo, é mentira. O povo ainda quer a agência física, porque tem a confiança de lidar com o ser humano, o olho no olho”, pondera.
Bancários afetados
No último dia 6 de julho, foi lançada a Campanha Nacional dos Bancários 2026. Por meio dela, sindicatos têm realizado reuniões com a Federação Nacional dos Bancos (Fenaban) e outras entidades a fim de garantir a manutenção de empregos e evitar o fechamento de agências.
O movimento sindical dos bancários denunciam que, entre janeiro de 2015 e maio de 2026, os bancos reduziram os postos de trabalho em cerca de 93,3 mil, conforme dados do Dieese. No último ano, o Santander eliminou 6.196 postos, o Itaú, 4.620, Bradesco, 3.017, e o Banco do Brasil, 1.498 postos, totalizando 15.331 pontos. No mesmo período, o setor reduziu em 42% (9,5 mil) a rede de agências.
“Os bancários não são realocados, são demitidos. E a alegação é de que eles não têm mais perfil para trabalhar no banco. Ou seja, um bancário que está há 10, 15 anos trabalhando, de repente, não tem mais perfil para trabalhar”, afirma Ramon. “Em geral, são aqueles que trabalham na área operacional”, pontua. Em muitos casos, as agências fechadas são transformadas em escritórios. “Esse escritório de negócios não tem atendimento humano de caixa, não tem autoatendimento, só tem atendimento comercial. Só gerente para fazer negócio”. (Fonte: O Tempo)
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